INDÚSTRIA E COMÉRCIO ODERICH LTDA.

Fundada em 1933

            Nos anos 30, vastos pinheirais cobriam boa parte das encostas do planalto, estendendo-se pelos municípios de Lagoa Vermelha, Vacaria, Bom Jesus e São Francisco de Paula. Nestas florestas, os fazendeiros mantinham manadas de porcos semi-selvagens que procuravam a sua própria alimentação, composta de raízes e fungos. Quando a pinha amadurecia, deixava cair os pinhos. Era o início da engorda.

            Quando a safra de pinhões acabava, apareciam os compradores de suínos. Eles reuniam lotes de 400 ou 500 animais e formavam a tropa que era conduzida pela comitiva a pé, pelas estradas de terra batida, por semanas sem fim, até a estação da estrada de ferro mais próxima ou tomavam a direção da fábrica de conservas de Carlos H. Oderich & Cia., em São Sebastião do Caí.

            Os animais apartados tinham a idade de dois a três anos e possuiam belíssimos pêlos. No fio do lombo, estes pêlos eriçados atingiam o comprimento de dez centímetros e eram rijos. Este fato chamou a atenção, nascendo daí a idéia de dar aproveitamento aos mesmos.

            Por esta época, residia em Porto Alegre, na rua Ramiro Barcelos, uma família de imigrantes alemães, vindos ao Brasil, após o término da primeira grande guerra. Eram especialistas em preparação de cerdas, fabricando pincéis, escovas, vassouras  etc... Convidados por mim a tentar o que hoje em dia chamar-se-ia uma “joint-venture”, aceitaram. Mudaram-se para São Sebastião do Caí e assim aconteceu fundar-se no ano de 1933m a firma Oderich, Vetter & Cia Ltda. Fabricávamos pincéis, escovas e vassouras. Além disso, preparávamos cerdas, ou seja, feixes de fios beneficiados que vendíamos a outras empresas para que elas as utilizassem na fabricação.

            Naquele tempo, como ainda hoje, o maior produtor de cerdas do mundo era a China. Ocorre que ainda na década de 30, aquele país teve o seu território invadido pelos japoneses, o que passou a dificultar as exportações chinesas para o ocidente. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, então, esta exportação tornou-se impossível.

            A indústria americana trabalhava 24 horas por dia, 365 dias por ano a pleno vapor para suprir as crescentes necessidades dos exércitos, marinha e aviação dos aliados. Ela recentia-se não somente da falta de cerdas, como de inúmeras outras matérias-primas.

            Premidos pela necessidade, lembraram-se os chefes do Pentágono de criar o que chamaram de “one dolar men army”, um exercito especial, sem armas, composto exclusivamente de especialistas de todos os ramos imagináveis de atividade humana. Pessoas com mais de 65 anos de idade, aposentadas, mas com disposição e patriotismo suficientes para por os seus conhecimentos a disposição da sua partia. Recebiam pelos seus serviços, o pagamento de um dólar anual, donde o nome pelo qual eram conhecidos.

            Não tardou para recebermos a visita de um membro desta legião de patriotas, em  São Sebastião do Caí. Sua especialidade: preparação de cerdas. Ele examinou nossas instalações e inspecionou nossa produção que achou boa; considerando-as similares as chinesas. Recomendou certas modificações, no que foi prontamente atendido e assim ingressamos formalmente no clube dos fornecedores de matérias-primas da industria bélica americana. Chegamos, então, a trabalhar com mais de duzentas pessoas apenas na produção de cerdas, atingindo a produção mensal de 500 quilos.

            Pode parecer aos leitores que a produção de 500 quilos de cerdas por mês usando-se 200 pessoas neste trabalho, é demasiado pequena. Ainda assim se considerarmos que naquele tempo trabalhava-se 25 horas por mês, pois o Sábado era dia útil. Para que entendam a razão desta pequena produção, procuraremos, em rápidas pinceladas, descrever o processo de produção de cerdas tipo chinês.

            Nós adquiríamos as cerdas dos curtumes e de alguns poucos frigoríficos. Geralmente os suínos eram abatidos pêlos próprios colonos que os transformavam em banha e em carne salgada. O couro era vendido ao curtume. O mesmo era feito pela maioria dos matadouros enato existentes.

            Os curtumes separavam as cerdas que ficam no fio no lombo. Atavam as cerdas formando pequenos molhos. Procurando manter, na medida do possível, as pontas voltadas numa direção e as raízes noutra. O leitor já terá observado alguma vez, com atenção a ponta de uma cerda? Se o fizer, notará que cada uma delas possui uma bandeirinha. Na ponta, ela é dividida, rachada. Esta particularidade faz com que a tinta fique segura na ponta do pincel, facilitando o trabalho do pintor.

            Mas prossigamos com a descrição da preparação de cerdas.
            Inicialmente, elas são lavadas cuidadosamente em água limpa e sabão. Depois, penteadas, enroladas com um barbante especial ficando como se pequeno salame. Em seguida, são fervidas, esterilizadas, secas, batidas, novamente penteadas, viradas de forma que todas as pontas fiquem de um lado e as raízes de outro. Finalmente, são puxadas, separando-se os comprimentos milímetro por milímetro.

            Por esta descrição, alias superficial e incompleta, o leitor pode ter uma idéia do que representa em trabalho e paciência a preparação manual, de 500 quilos de cerdas tipo chinês por mês.
Naquela época, todo o trabalho era feito manualmente.

            Mas terminou, já a muito tempo, esta fase inicial da empresa. A hoje tradicional fábrica de escovas, mudou a sua direção, a orientação... até mesmo o nome da firma foi mudado para Indústria e Comércio Oderich Ltda.

            Tudo mudou. Desapareceram os vastos pinheirais da serra e com eles os pinhões e os selvagens porcos serranos de dois ou três anos de idade e pêlos grossos e rijos. Os porcos, hoje, nascem, se desenvolvem e são abatidos em apenas seis meses. Ao invés das boas cerdas dos porcos de mais idade, eles não apresentam no lombo nada mais que cabelos flácidos e impróprios para o uso industrial. Atualmente todas as fabricas de pincéis, escovas, etc..., que antes usavam cerdas suínas, utilizam fibras artificiais. A produção é totalmente mecanizada, atingindo uma eficiência e produtividade muito superior a que podíamos alcançar no passado.

            Até mesmo a rachadura na ponta da cerda artificial é feita através de máquinas. Não se pode mais dizer, como antigamente, quando se queria falar de uma coisa impossível, em “RACHAR UM CABELO”, pois para as máquinas modernas, isto é perfeitamente realizável.

Discurso proferido pelo Fundador Max Adolfo Oderich na comemoração dos cinqüenta anos de existência da empresa (05.12.1983).